| Ascensão ao Monte Jbel Toubkal |
| Escrito por Jardinas |
| Segunda, 12 Outubro 2009 22:51 |
A ideia já á muito que estava dentro da cabeça , cada vez que ia a marrocos e passava pelo alto atlas ficava com a curiosidade de ir lá acima , e quando soube que o grupo da malta do http://www.rituais.com/ estava com ideias de voltar a tentar a subida novamente este ano, decidi que tinha de ser desta.A experiência passava por alguma preparação física e equipamento de montanhismo, como estou mais familiarizado em andar sentado dentro de um Land Rover à descoberta de novos locais, ia ser uma novidade para mim ter de aguentar muitas horas a caminhar e com o tal equipamento (mochila com o camel bag, comida, bastões, grampons e poinets), estes últimos em caso de haver neve e gelo no cume. A preparação começou por fazer pesquisa na net sobre tudo o que há sobre a ascensão ao toubkal e depois de um treino na serra da Arrábida fiquei com uma pequena noção do que seria a aventura, (pequena mesmo comparada com o que me esperava na semana seguinte). De Lisboa veio o Paulo Alves, a Margarida e o Paulino, o Alvaro juntou-se a mim aqui em Azeitão e íamo-nos encontrar com o pessoal do Porto, o Francisco, Alina e a Diana Feito o grupo e combinado o que iríamos levar, começámos a encaixar as mochilas dentro do pobre Discovery 200, com 18 anos mas com uma telefonia nova, filtros mudados e níveis revistos para fazer cerca de 3000kms. ![]() Sexta-feira rumámos em direcção a Algeciras para apanhar o barco para Tanger, uma travessia mais demorada mas com o “regalo “ do bilhete de 100 euros com a oferta dos passageiros não pagarem nada. Dormida em Larache num parque de repouso gratuito com banho de água quente , dali sairíamos no dia seguinte via auto-estrada até Marraquexe e Imlil onde já estava o pessoal do Porto à nossa espera. Imlil é até onde chega o alcatrão a 1700 mts de altitude, dali para a frente só mesmo de 4x4 e somente durante mais uma dúzia de kms, o resto é mesmo à lá pata. ![]() Domingo de manhã rumámos ao refúgio de Nelter cerca de 10 kms acima em linha recta e a uma altitude de 3200mts mas com uma inclinação e dificuldade bastante acentuada. ![]() Pelo caminho cruzamo-nos diversas vezes com mulas que transportam mantimentos para o refúgio da montanha, o trilho é fácil de seguir pelo rasto de excrementos das mulas e por marcações com tinta fluorescente branca nas pedras, estas marcações são fundamentais quando se caminha à noite no trilho e com os frontais (luzes que se colocam na cabeça) podermos identificar o caminho. (Aconteceu na descida , atrasarmo-nos bastante e anoiteceu , colocámos os frontais mas 5 minutos depois tínhamos perdido o trilho, valeu-nos o “Magalhães dos GPS” um Garmin e-trex que adquiri aquando do GrandolAventura e que foi a salvação porque gravei o track na subida). Chegados ao refúgio Nelter depois de 6 horas de caminhada, 2 dos 8 caminheiros regressaram a Imlil devido a tonturas e cansaço, naquele ponto sente-se bastante a altitude, uma pequena subida de degraus é como ter corrido 100 mts, o receio de ser atingido pelo “mal de altitude” que pode ate levar á morte ou invalidez permanente faz com que respeitemos os 1ºs sinais do nosso corpo á falta de oxigénio. Neste refúgio temos de tirar as botas e andar com chinelos dentro do edifício, há banho e comida quente acabada de fazer, a sopa é de repetir. ![]() A dormida é feita em camaratas, na nossa e para além de nós os 6 estavam mais 16 espanhóis, nos outros 4 quartos que estavam todos lotados estavam também espanhóis, italianos, franceses e irlandeses e havia malta a dormir no chão da sala de convívio. No dia seguinte os Xerpas (nome dado aos guias de montanha) começaram a orientar os grupos que os tinham contratado e nós tentámo-nos colar ao grupo dos cerca de 50 espanhóis, para a boleia para o cume. Não tínhamos Xerpa, a Margarida era a única que estava connosco e tinha conseguido chegar ao cume no ano anterior e tinha sido com neve, como não reconhecia o trilho , teríamos de nos colar a um grupo. A saída foi feita ainda de madrugada depois de um pequeno almoço quente, saímos para o trilho ainda de noite com 7 graus e com a esperança de chegar ao cume, nas mochilas leva-se somente o indispensável, barritas energéticas, cubos de marmelada, bebidas isotónicas, água no camel bag e a máquina fotográfica. ![]() O saco-cama , e o resto das nossas bagagens ficaram para trás no refúgio Nelter. ![]() Pelo caminho em fila indiana ia-se respirando com o ritmo das passadas, e paragens regulares para descansar.Se até aqui já se sentia a altitude, agora as dificuldades aumentavam ao frio, pouco depois parámos para repor as forças com as barritas energéticas e água. A subida para o cume é silenciosa só se ouvindo o barulho dos bastões a bater nas pedras e o respirar cansado dos caminheiros,… ninguém fala. ![]() O nosso grupo parte-se diversas vezes mas temos sempre contacto visual uns com os outros, isto deve-se a alguns caminheiros terem um ritmo diferente dos outros. ![]() Apesar de todo o tipo de protecção e equipamento necessário para um evento destes, passei por uma espanhola com meias e chinelos a fazer a subida. Metro a metro e passo a passo vai-se subindo passando por marcas cor-de-laranja fluorescente nas rochas para marcar o trilho, por aqui as mulas transportadoras já não andam, portanto deixa de haver os excrementos a marcar o trilho. O ponto alto da subida é nos 4020 mts quando as forças estão a chegar ao limite e a numa curva para a esquerda se avista a torre do Toubkal, uns míseros 147 mts acima, mas que mais parecem uns 4 kms. Esta visão entra no corpo como uma lufada de ar fresco. A malta reagrupa-se e fazemos os últimos metros em grupo com mais animo. A chegada á torre do Toubkal é difícil de descrever, andei as voltas com palavras e frases mas não consigo encontrar uma que tenha o significado certo para escrever. A partir deste momento deixa-se de ser caminheiro para ser chamado de Montanheiro.Só me lembro de nos abraçarmos todos e de nos felicitarmos com os “parabéns” da praxe, de termos tirado umas fotos e filmado uns vídeos, depois disso sentámo-nos um pouco a descansar e a comer, ainda tinha um chouriço e pão para além das barritas. ![]() A seguir íamos começar a parte mais dolorosa… a descida. A descida para o Nelter é morosa e com cautela, tem zonas de cascalho que ao subir faz-se bem mas descer são autênticos “berlindes “debaixo dos pés, noutros pontos do trilho as pedras que se soltam debaixo dos nossos pés acabam por vir bater nos calcanhares ou nas pernas uns metros mais á frente, é preciso identificar as armadilhas e evita-las. Chegados ao Nelter, há que reforçar o alimento e carregar as coisas que deixamos para seguir viagem para Ilmil, a chegada do Francisco e Alina deixa-nos a saber que não fazem a descida connosco, estão demasiado cansados para aguentar mais 10 kms de tortura , ficam no refugio e descem no dia seguinte. A descida para Imlil parecia mais rápida e curta do que viria a ser na realidade, e o cansaço e dor nos músculos acaba com o que sobrava de resistência. A mochila é cada vez mais pesada e magoa em todos os pontos de apoio. Anoitece e fazemos o trilho já com os frontais colocados e a navegar o track-back do GPS. Quando se chega ao base-camp ,esta a decorrer um evento de subida ao toubkal, de franceses e brincamos com a hipótese de irmo-nos inscrever para subir novamente mas o cansaço e não deixa e o jantar em Marraquexe espera-nos. Dia seguinte, compras e encontro em Marraquexe com o Francisco e Alina que nos dizem que os espanhóis nos chamaram de malucos (aquilo era para ser feito em 3 dias e não em dois). Daqui em diante e durante os seguintes dias fizemos o nosso regresso a casa, passando por Kenifra, cascatas de Oumrbia onde comemos umas belíssimas tagines, visitamos os macacos em Azrou já de noite e marcamos uns waypoint muito giros. Auxiliamos num acidente de viação com feridos onde os bombeiros quando chegaram foram primeiro fazer o orçamento á viatura sinistrada e só depois foram ajudar os feridos. ![]() Compramos melões em Alcácer Quibir e apanhamos a tal promoção dos 100 ouros do bilhete do barco para Algeciras. Ainda ficamos impressionados com 3 miúdos marroquinos que tentavam a sua sorte na travessia do estreito debaixo de um contentor num camião, mas foram descobertos e detidos já na fronteira em Espanha (viajavam no eixo do camião). Os últimos 500kms foram já feitos durante o dia de sábado e chegamos a Azeitão ao final do dia, descarregar as fotos e vídeos, as despedidas e ainda tempo para ir ver o ultimo concerto dos Delfins no coliseu. O descanso chegou eram 02.00 a.m. O Discovery portou-se á altura de um Land Rover e vai ser uma pena ter de o vender … não tem avarias não me interessa ficar com ele. ![]() A experiencia de subir ao Toubkal fica gravada na memória e a ideia de um dia voltar lá não esta posta de parte. Um obrigado muito grande aos companheiros de expedição, aprendi muito com eles. Jardinas |








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